Futebol, esse mundo sem moral nem lei

Todos defendem os direitos humanos e o ambiente desde que não mexam no futebol e nos seus chorudos lucros. O Mundial no Qatar está a revelar um atroz e chocante nível de cinismo. A elite política e empresarial permitiu a violação dos mais básicos dos direitos humanos e só agora, a poucos dias do campeonato, começam a reagir de forma mais visível. O mínimo, de facto, que a FIFA e os patrocinadores podem fazer é criar o fundo de compensação para os migrantes que morreram e sofreram para que o mundo veja um mundial de futebol a partir do Qatar, tal como pede a Amnistia Internacional em conjunto com organizações de defesa dos direitos humanos e fans.

Em cima do Mundial, começam a surgir diversas posições, lamentavelmente tarde de mais e já em reacção às críticas e iniciativas de organizações de defesa dos direitos humanos. Tudo na sequência de reportagens que têm sido realizadas sobre as condições desumanas de trabalho a que estiveram sujeitos os migrantes que construíram os estádios e as infraestruturas que vão permitir a realização dos jogos, e que incluíram acidentes mortais. Veja-se, por exemplo, este trabalho do The Guardian, de 2021, revelando que mais de 6.500 migrantes morreram desde que o Qatar foi escolhido, em 2010, para organizar o Mundial de Futebol. Ou esta, mais recente, que denuncia a manutenção de condições desumanas.

O pecado original está em 2010, na total ausência de condições colocadas pela FIFA aos organizadores no Qatar, em matéria de direitos dos trabalhadores, só se começando a preocupar quando as situações foram denunciadas, designadamente pela Amnistia Internacional. E, pelo menos até agora, a reacção do presidente da FIFA Gianni Infantino foi de desvalorização destas óbvias violações dos direitos humanos.

Também na frente ambiental, apesar do compromisso de ser o primeiro mundial neutro em emissões de carbono, o que as organizações de defesa do ambiente acabam por verificar é que os cálculos foram feitos de forma a dar o desejado zero, e não da maneira que deviam ser realizados. Por exemplo, a Carbon Market Watch, citada pela CNN, diz que se excluíram as emissões do ar condicionado nos estádios e contabilizaram-se apenas as emissões dos 70 dias da sua utilização.

Mas não se pode apontar o dedo apenas à FIFA. As empresas patrocinadoras têm igualmente uma enorme responsabilidade, se não a mais significativa. Podem ver-se aqui quem são os parceiros da FIFA, os patrocinadores dos mundiais, os regionais e ainda os que apoiam os clubes. Temos empresas com responsabilidades globais como a Adidas, a Coca-Cola, a Visa, a McDonald' e a Nike, só para citar alguns. Algumas já apoiaram a criação do fundo de apoio aos migrantes. E por agora temos uma exceção em termos de imagem, a Hummel, patrocinadora da selecção da Dinamarca.

No caso de Portugal a Nike é a patrocinadora que tem o logo nas camisolas dos jogadores. Mas temos também empresas como a Sagres, a Altice, a Galp, o BPI e a CUF, para citar apenas algumas das que são aqui identificadas.

Será fácil encontrar nas mensagens de todas estas empresas declarações de compromisso com os direitos humanos e o ambiente e, em geral, com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Agarremos apenas numa das que tem mais notoriedade global, a Nike, e vejam-se os seus objetivos de desenvolvimento sustentável. Princípios e objetivos que ficaram esquecidos no caso do Mundial de Futebol no Qatar. O mesmo é válido para praticamente todas as empresas europeias, incluindo, obviamente, as portuguesas.

Claro que neste momento se começam a somar posições. A selecção da Dinamarca vai usar camisolas sem logotipos e terão três cores: vermelho, branco e preto, esta última a simbolizar o luto pelas vítimas da concretização do Mundial no Qatar. A sua principal patrocinadora, a Hummel, afirmou: "Não queremos ser visíveis durante um torneio que já custou a vida a milhares de pessoas. Apoiamos a seleção dinamarquesa até ao fim, mas não apoiamos o Catar como sede do Mundial". Não é muito, mas já é qualquer coisa. Imaginem se nos jogos uma das equipas estivesse de luto.

Também os capitães de equipa de oito de 13 equipas de futebol pretendem usar braçadeiras com o arco-íris, uma forma de se manifestarem pelos direitos LGBT num país onde a homossexualidade é ilegal. Veremos se a FIFA o vai permitir.

A mais recente iniciativa chega de França. Começou com o presidente da Câmara de Lille Martine Aubry que considerou que o Mundial no Qatar "não faz sentido em termos de direitos humanos, ambientais e desportivos". Na sequência disso, não existirão ecrãs gigantes, não apenas em Lille, como em Paris – a última a aderir – em Marselha, Bordeaux, Estrasburgo e Reims.

E em Portugal, pergunta-se? São poucos os artigos de opinião sobre o tema – vale a pena ler António Araújo, no Diário de Notícias, "Qatar o Mundial da Vergonha" ou no Público, da autoria de Pedro Castro, "O não-boicote ao Mundial".

Entidades oficiais, o que disseram? Que se tenha dado conta, a Federação Portuguesa de Futebol nada disse. Registe-se que pelo menos as federações alemã, inglesa e a francesa apoiam a criação do fundo proposto pela Amnistia Internacional para apoiar os migrantes vítimas da violação dos direitos humanos no Qatar. Do seleccionador nacional Fernando Santos também, que tenhamos dado conta, nada se ouviu. E das empresas também não. Tudo corre normalmente com as camisolas a seguirem o modelo habitual e as empresas patrocinadoras igualmente mudas.

No mundo português do futebol assistimos foi a tentativas de censura por parte da Federação Portuguesa de Futebol e ao envolvimento do presidente da Câmara do Porto, que chamou "perfeito imbecil" a outro jornalista . Não respeitam o direito de informar, também parecem importar-se pouco com os direitos humanos.

Se nos outros países ainda há quem tome posições, em Portugal o futebol parece ser a terra onde todos se sentem à vontade para actuar sem moral nem lei. Dizer que se defende os objetivos ambientais e sociais e depois não ver nem ouvir o que se passa, quando significa que se podem perder milhões é fácil. Mas não devia dar milhões.

Helena Garrido h 1 mês