Será o Mundo mais seguro sem armas nucleares?

Foi premiado este ano com o Nobel da Paz, a organização International Campaign to Abolish Nuclear Weapons (ICAN). O intuito desta organização é promover um mundo livre de armas nucleares, acreditando que desta forma o Mundo tornar-se-á um lugar mais seguro.

Não há dúvida de que as armas nucleares são a criação militar mais perversa, não só pela sua extraordinária capacidade destrutiva, mas porque visa apenas um objetivo – atingir civis. Não há nenhum alvo militar criado pelo homem que justifique a utilização de uma bomba atómica ou de hidrogénio para a sua destruição. Obviamente que não é a única arma que pode ser utilizada para matar civis, veja-se o bombardeamento de Londres pelos Nazis e de Hamburgo e Dresden pelos aliados na 2ª Guerra Mundial. O bombardeamento de Dresden, apesar de menos mortífero que o de Hamburgo, foi especialmente perverso, pois foram utilizadas bombas incendiárias que, através da propagação de fogos na cidade, tinham como único propósito aumentar as baixas civis. Ainda assim, a arma nuclear é a única que não tem outro fim para além de atingir civis.

Dito isto, será verdade que o Mundo fica mais seguro se as armas nucleares forem abolidas? A resposta a esta pergunta é complexa, mas reduzindo a um sim ou não, surpreendentemente a resposta parece-me ser não.

A organização premiada pelo Comité Nobel defende um pacto internacional que obrigue os seus signatários a renunciar às armas nucleares. Apesar das boas intenções, a realização deste pacto representaria um risco muito maior do que a atual situação de existência de armas nucleares por diferentes países.

Ou seja, imaginem que o pacto de renúncia ao armamento nuclear é ratificado por todos os países do Mundo. O que isto iria originar é que o primeiro país a quebrar o pacto teria ganhos incalculáveis em relação aos restantes países cumpridores. Poderíamos cair numa situação de domínio global por parte de uma nação em relação a todas as outras não nucleares. A capacidade de um país utilizar armas nucleares sem o risco de resposta na mesma magnitude, aumentaria significativamente a sua probabilidade de utilização. Aliás, a bomba atómica só foi utilizada quando os EUA eram o único detentor dessa tecnologia. A partir do momento em que outros países desenvolveram armas nucleares (nomeadamente a URSS), nunca mais foram utilizadas. Ou seja, o pacto acabaria por criar uma situação iminente de desequilíbrio de poder entre diferentes potências e, sempre que isso aconteceu, o equilíbrio tem sido reposto através da guerra.

Reparem na diferença de consequências de atos semelhantes, se bem que em contextos diferentes. Na 1ª Guerra Mundial a Alemanha declara guerra à Rússia porque esta mobilizou o exército (ou seja realizou movimentações de tropas ainda no seu território). Esta mobilização foi considerada pelo Kaiser uma declaração de guerra por parte do Imperador Russo. Na crise dos mísseis de Cuba, a URSS instala mísseis nucleares a 800 km dos EUA e, apesar de toda a tensão originada, a situação foi resolvida de forma diplomática. Neste caso, o facto de estarmos numa situação de destruição mútua assegurada, ou seja nem os EUA nem a URSS conseguiriam infligir danos de tal forma que evitassem um contra-ataque demolidor da outra parte, foi evitada uma guerra direta entre as super-potências.

Não está em dúvida que todos procuramos viver no Mundo mais seguro. Não procuro contestar a atribuição do prémio Nobel da Paz a esta organização, porque não duvido das suas intenções e motivações. No entanto, não acredito que a abolição das armas nucleares seja o caminho para um Mundo mais seguro e previsível.

Bernardo Sacadura h 9 dias