É difícil ser mulher ‐ Parte I

1 O adjetivo que pretendia utilizar no título destas breves linhas não era propriamente aquele que acabou por constar, uma vez que não me parece que seja só difícil, é muito mais do que isso, mas acima de tudo, é algo muito mais violento do que a mera dificuldade. Talvez por isso seja uma dificuldade que se escreve de forma diferente e com inicial distinta, a que se recorre por diversos motivos ao longo de um dia normal.


Há umas semanas fiz uma publicação numa rede social profissional, acompanhada de uma foto em que dizia algumas palavras sobre a revolta que sentia ao assistir ao desfile de hipocrisia e julgamento feito à Primeira-Ministra Finlandesa Sanna Marin, por causa do vídeo em que consumia bebidas alcoólicas e se deixou filmar feliz, atraente e a dançar com amigos. Na mesma publicação, acompanhada de uma foto pessoal – que não era atraente, mas fazia parte de um momento divertido –, contava um episódio que vivi dias depois de conhecer os resultados de provas académicas, dias antes de um novo desafio profissional, e um mês antes de eu próprio me ter deixado filmar a grasnar – por mais que tente, eu sou incapaz de cantar – uma música dos britânicos OASIS, uma das minhas bandas de culto, num festival de verão. Com essa publicação, recebi variadíssimas mensagens privadas, de amigas, de colegas e de pessoas que simplesmente tiveram contacto com a publicação que, enquanto homem, me envergonharam.


2 E senti vergonha desde logo, porque, seja onde for, o mundo é sempre um lugar pior para as mulheres. Porque nós homens podemos querer estar apresentáveis e ser charmosos sem nenhuma razão em especial. Já as mulheres, não podem gostar de se vestir bem, as mulheres arranjam-se para agradar a um elemento do sexo masculino, para chamar a sua atenção, e certamente porque querem que as atormentem com as mais dementadas frases e os mais abjetos comentários e, não raras vezes, com o toque ou a aproximação invasiva da sua privacidade.


Os homens, quando saem à noite, fazem-no porque gostam de música, de conviver com os seus amigos, tomarem uma ou outra bebida. Contrariamente, as mulheres que saem à noite fazem-no em conluio umas com as outras, com vista a atentar contra a seriedade dos pobres homens, fazem-no para seduzir, porque querem ser seduzidas, porque querem ser conquistadas e, claro está, para extorquir bebidas aos pobres indefesos. Das mulheres que saem com as suas amigas e outros homens nem falo, poderia ser banido para sempre.


3 Mais, é mundialmente reconhecida a preocupação masculina com a sua forma física, sendo certo que a máxima latina do mens sana in corpore sano personifica-se no sexo masculino e, por isso, o ginásio é o seu habitat natural, não devendo ser ocupado de forma naturalmente sedutora por elementos do sexo feminino. Todos sabemos que as mulheres não têm preocupações com a roupa que vestem, mesmo para treinar, e aquela que utilizam no ginásio tem como único e exclusivo motivo, a necessidade de provocar todos os homens presentes, quer os instrutores que deviam zelar pela integridade física e mental de todos quantos ocupam aquele espaço, quer aqueles que estão ali a cuidar de si próprios e a serem importunados pelas tentadoras e pecadoras filhas de Eva.


Uma mulher quando escolhe o seu treino, não o faz a pensar no seu bem-estar, mas sim na satisfação daqueles que, certamente por obrigação, a miram da ponta dos cabelos aos atacadores do seu calçado (evitei, propositadamente, tomar partido da querela entre ténis e sapatilhas), e não me refiro àqueles tristes indivíduos que, por incapacidade própria, não se focam no seu exercício mas em tudo aquilo que se passa à sua volta. A mulher não quer treinar, a mulher quer aprumar a sua forma física, para agradar a todo e qualquer homem que com ela se cruze. Das que correm na rua, todos sabemos que o fazem porque adoram as buzinas com que as presenteiam a cada cem metros.


4 Por último, o homem trabalhador. O homem trabalhador, tem de liderar, tem de criar, tem de construir, tem de envolver a equipa e, à sua volta, criar um exército de futuros líderes que, com ele, fazem o seu setor avançar. E a mulher? Para além de lhe desviar o foco, servirá apenas para questões laterais, para ser gira nas reuniões, para não incomodar e, naturalmente, não pretender liderar, criar, tomar decisões, construir, ou mesmo existir por si mesma, porque se por acaso isso acontecer, todos sabemos que dormiu com o dono da empresa, a devassa incompetente.


Isto faz algum tipo de sentido? Que sentido terá uma mulher ter de evitar os olhares, os comentários, ou mesmo as aproximações de tantos homens, dia após dia, na discoteca, na rua, no ginásio, no local de trabalho, no seio familiar? Que sentido faz, em 2022, não olharmos de forma igual para homens e mulheres? Qual o sentido de passarmos a vida a desconsiderar o mérito e a capacidade de toda e qualquer mulher? Isto não é sobre igualdade, mas sobre decência, e sobre como falhámos grosseiramente com as nossas avós, com as nossas mães, com as nossas namoradas, e já estamos a falhar com as filhas que ainda vamos ter. Sempre que aceitamos calados o difícil (ou outro adjetivo) que é ser mulher, estamos a falhar com elas e, sobretudo, a pactuar com séculos de abusos. Na parte II deste texto, não vamos ter tanta ironia, mas talvez tenhamos um manifesto. Não percam o próximo episódio, porque nós também não.

Simão Mendes de Sousa h 1 mês