Quando a guerra é boa para a economia

O Presidente da República tem-no dito de forma até um pouco brutal e desumana. Mas não deixa de ter razão. Portugal é não só um dos países europeus com menos efeitos directos da guerra na Ucrânia, como pode retirar benefícios do conflito e da instabilidade que se vive na Europa central. O desvio do turismo para este lado da Europa é uma das possibilidades. Mas talvez a mais importante é a reorientação para Portugal de investimentos que estavam planeados para a Ucrânia e até para a designada Europa de Leste. A geografia joga agora a favor da economia portuguesa.

As previsões de crescimento, que esta semana foram divulgadas pela Comissão Europeia, dificilmente reflectem já esta realidade. Portugal tem os melhores números do crescimento – é o país da Zona Euro que mais vai crescer este ano com 5,8% –, os melhores números da inflação – é o país com a mais baixa previsão de inflação, com 4,4% – e até o mercado de trabalho está bastante favorável – regista uma das mais baixas taxas de desemprego e, simultaneamente, tem margem para aumentar a oferta de trabalho por via das horas trabalhadas, ainda inferiores aos valores pré-pandemia, o que alivia as pressões sobre os salários, que são a grande preocupação no combate à inflação. Entre as boas notícias temos ainda o facto de a Espanha, com quem temos fortes interligações, estar entre os países que mais cresce – 4% em 2022.

A inflação mais baixa que temos, como tem referido Pedro Brinca, professor na Nova SBE, pode ser em grande parte explicada pelo facto de a política de apoios da pandemia se ter centrado mais nas moratórias e linhas de crédito e menos em dar dinheiro. Claro que temos de ver se foi totalmente positivo quando passar tempo suficiente e concluirmos que a via da dívida não gera falências e insolvências. Mas, para já, tem permitido que os preços subam menos.

A forte recuperação do turismo é a principal explicação para estas perspectivas tão animadoras para a economia portuguesa, a que se junta o facto de ter recuperado mais lentamente o ano passado, reflexo do peso que aquele sector tem na economia. Só quando viajar começou a ser mais livre é que se começou a ver a economia portuguesa a arrancar.

E, neste momento, há até razões para admitir que o crescimento nos pode surpreender pela positiva. A previsão da Comissão Europeia de 5,8%, embora mais animadora do que a do Governo e do Banco de Portugal (4,9%), tem igualmente implícito que o resto do ano pode ter uma evolução mais negativa. De acordo com cálculos efectuados pelo ISEG, mesmo que se produza o mesmo que se produziu no primeiro trimestre durante os segundo, terceiro e quarto – ou seja, que a economia estagne – o crescimento seria de 6,4%. Assim sendo, mesmo as animadoras previsões da Comissão Europeia podem ser ultrapassadas ou teremos trimestres de quebra da produção.

Com os indicadores, especialmente do turismo, e as informações que começam a ser públicas, há uma boa probabilidade de termos uma surpresa positiva este ano. No turismo, Portugal pode beneficiar de algum desvio de turistas que estavam a pensar ir para aquela zona da Europa. Em segundo lugar, as consultoras começam a revelar que alguns investimentos previstos para a Ucrânia e em geral para a Europa de Leste podem acabar por ser concretizados em Portugal. Se juntarmos a isto um reforço da tendência de desglobalização que a guerra veio trazer, Portugal tem condições para crescer mais. De tal maneira que podemos acalentar a esperança de ver melhoradas as medíocres taxas de crescimento previstas para o tempo em que se corrigir o mergulho gerado pela pandemia – e que estão já projectadas para 2023, ano para o qual a Comissão Europeia prevê um crescimento de apenas 2,7%.

Claro que este é um cenário que tem riscos, que podem ser de uma dimensão tal que deitem tudo a perder. O mais perigoso desses riscos, para um país endividado como Portugal, é a instabilidade financeira. Tal como se tinha percebido pela catadupa de declarações e entrevistas de membros da comissão executiva do BCE, na sequência aliás de uma forte divisão entre os governadores na última reunião, Christine Lagarde veio a semana passada abrir a porta a uma subida das taxas de juro em Julho. Embora seja óbvio que tinha de se começar a normalizar a política monetária, com a inflação as estes níveis na Zona Euro e depois do que os outros bancos centrais já fizeram, o BCE terá de ser especialmente cuidadoso.

O regresso da desconfiança dos investidores em relação a países endividados e com baixo crescimento é um perigo de que Portugal não está livre. Como não está livre de a perda de poder de compra, gerada pela inflação, associada ao aumento das prestações da casa, determinada pela subida dos juros, – e que já começou – poderem provocar problemas financeiros que contaminem os bancos. Junte-se a isso a pandemia, que ainda não despareceu completamente, e temos de facto ainda nuvens no horizonte.

Tanto quanto se pode ver o horizonte, nestes tempos de tempestade e nevoeiro, tudo leva a crer que Portugal é um dos poucos países da Zona Euro que tira desta guerra menos custos do que perspectivas de ganhos. Mas todos nós estaríamos dispostos a prescindir desses ganhos para termos a Europa que tínhamos antes da invasão da Ucrânia pela Rússia. Porque a médio prazo ninguém sabe como estaremos.

Helena Garrido h 1 mês