A guerra do Solnado

"Tá lá? É do inimigo?
O que é que tu queres? Já trabalhas de espia há muito tempo?
Não. Só desde as onze!"

Raul Solnado fez sucesso com este texto. Era uma rábula sobre a guerra de 1908 que era um pouco acima da porta da guerra de 1906. Na altura ainda não se falava em Stand Up Comedy, mas esta foi, seguramente, uma das mais famosas do humor português. Vale a pena procurar na internet e rir de novo com Raul Solnado.

As notícias dos últimos dias sobre relatórios das secretas – quem sabia e não sabia desses relatórios, para que servem os relatórios das secretas – fez-me lembrar a guerra do Solnado. Em Portugal os assuntos classificados e de Estado são encarados como uma brincadeira. É preciso ter secretas porque todos os países têm. É preciso produzir informações porque é para isso que servem as secretas. Mas a pose de Estado acaba aqui. As histórias de espiões não são para levar a sério.

Já tínhamos assistido a isto em episódios passados. O mais grave de todos foi, talvez, o episódio do roubo das armas em Tancos. Agora falamos de espiões russos que andam a sacar informações a refugiados ucranianos. Continua assim a história do Solnado:

"Bati à porta do inimigo.
O que é que vens cá espiar?
Eu venho cá buscar os planos da pólvora.
Não dou, não dou, não dou…e foi fazer queixa ao capitão."

Continuamos a ouvir o relato e rimos a bandeiras despregadas.

Em 2022 ouvimos esta história de espiões que, em ambiente de guerra na Ucrânia, agem em Portugal com todo o à vontade e apetece chorar. Afinal a rábula do Solnado não é fantasia, é mesmo assim que as coisas funcionam por cá.

O episódio da Câmara Municipal de Setúbal, como o da Câmara de Lisboa, não foi levado a sério por autarcas, Governo e Presidente da República. Na prática os nossos responsáveis políticos tratam Portugal como a porta da guerra de 1908, um pouco acima da porta da guerra de 1906.

O pingue-pongue dos últimos dias, com o Presidente a garantir que não conhece o relatório das secretas e o Primeiro-Ministro a recusar esclarecimentos sobre este caso mancha o prestígio de um e de outro. Devia minar a confiança que depositamos nas instituições. E sobretudo revela que, no fim, para um e para outro, o que interessa é a política caseira e quanto a isso não há riscos no horizonte: um tem maioria absoluta para quatro anos e o outro já não volta a ir a votos.

Pelo caminho, no Parlamento, a oposição esbraceja com pedidos de esclarecimento que não chegam. Por cá, maioria absoluta significa mesmo poder absoluto e no primeiro teste o PS não deixou de fazer xeque-mate à oposição. As audições são com quem os socialistas autorizam e são os socialistas que definem quem tem interesse ouvir. Obviamente ninguém que possa pôr em causa a atuação do Governo, nem agora nem no passado. Fica a ganhar o Presidente da Câmara de Setúbal que é protegido para que ninguém se lembre que este PCP é o mesmo que sustentou António Costa no passado.

Está feito o primeiro teste à nova maioria absoluta. Ela vai ser exatamente igual a todas as outras. O PS vai ter as mãos livres para agir como quiser. O Presidente da República afinal não vai ser o árbitro implacável que António Costa nos quis vender. A oposição vai ficar acantonada no Parlamento. E, enquanto isto, o PSD continua a brincar às eleições internas.

Da última vez que tivemos uma maioria absoluta também todos os episódios estranhos eram tratados com a ligeireza de quem estava a ver fantasmas onde eles não existiam. Deu o lindo resultado que todos conhecemos. Assim vai a qualidade da nossa democracia.

Lembram-se da história da tentativa por parte de José Sócrates de remodelar a direção de uma televisão privada? Na altura, o Primeiro-Ministro também fazia piadas com teses da conspiração. Depois de ter caído em desgraça provou-se que afinal não eram teses, era mesmo uma conspiração a sério.

A guerra do Solnado só existe no âmbito da comédia, não é realidade. O Governo sabe disso, mas usa a técnica da ligeireza para afastar incómodos sempre que eles aparecem. A guerra na Ucrânia é um facto dramático que afeta o mundo inteiro. Nisto não há países grandes nem pequenos. O acolhimento e a segurança dos refugiados que recebemos não é uma brincadeira que possa ser descartada com umas declarações feitas ao acaso aos jornalistas, à porta de um qualquer evento.

O episódio de Setúbal é grave pelo que aconteceu, mas também pelo que nos diz do cenário político que temos no país para os próximos quatro anos.

Raquel Abecasis h 1 mês