O que há de errado com o Mundo. Um exemplo

São 15 horas da tarde no meu hospital/instituto, cantina a fechar. Felizmente chego a tempo. Ainda há comida e as simpáticas senhoras da cantina esperam pelos últimos cumprindo diligentemente o seu trabalho. O prato que escolho é o vegetariano (óptimo por sinal).


– Sobrou imenso! – constato – Que vão fazer a esta comida toda?
– Nada doutor, vai tudo para o lixo – responde desolada.
– Como assim para o lixo? Pensava que se daria sempre a alguma instituição!
– Não nos deixam doutor, por causa da lei. Há uma lei para a "comida hospitalar".
– Mas qual lei? – pergunto já indignado.
– Por causa do controlo de qualidade doutor. A empresa não consegue garantir a qualidade da comida para fora da cantina, por isso não a podemos oferecer a uma instituição. Alguém se podia queixar depois, se tiver uma gastroenterite ou assim.


Insisto – Mas que raio de lei é essa onde se diz que um prato que está óptimo para ser consumido pelos trabalhadores de um hospital numa cantina às 15 horas da tarde já não pode ser consumido por mais ninguém umas poucas horas após?


Encolhe os ombros. Também não percebe. Explica que já tentou muitas vezes dar um destino diferente à comida que sobra mas não a deixam. Vê-se nos seus olhos a desolação.


19 horas da tarde, Paróquia Senhora da Conceição no Porto, ou Igreja do Marquês, como também é conhecida, a meros dois ou três quilómetros. Filas de gente formam-se à porta do Centro Paroquial, onde centenas de pessoas garantem todos os dias talvez a única refeição quente do dia e algum calor humano também. Não sou voluntário neste projecto que é a Porta Solidária mas moro mesmo ao lado e lembro-me de ainda há dias ter visto um apelo nas redes sociais a pedir mais apoios. É difícil alimentar tanta gente e apesar de poder não ser considerada ideal uma solução dita assistencialista (para alguns até vista com desprezo pela "caridade") a verdade é que o "Estado Social" que lhes prometeram e que se apregoa como um sucesso nos jornais, falha-lhes nitidamente todos os dias.


Não fui procurar a "lei". Desconheço o obscuro decreto, portaria ou quiçá mero regulamento onde se plasmou tal alarvidade, mas não me surpreende que possa existir em Portugal. Foi afinal ao abrigo da Lei que se permitiram outras iníquas situações só nos últimos dois anos,  como a proibição de visitar os doentes em hospitais ou de honrar os mortos em funerais.


Não sei muito de leis, não sou jurista. Tenho, no entanto, a minha bússola interna e esta diz-me duas coisas que gostava de partilhar. A primeira: que se a Lei é feita pelo Homem deve servir o Bem dos homens e não impor-lhes regras iníquas. Afinal, somos nós, os cidadãos organizados em sociedade, que acordámos em nos reger por Leis com vista ao nosso próprio bem colectivo. É a NOSSA Lei, no sentido mais comunitário que o termo pode ter. Segundo: a moral não deve ter necessariamente força de Lei, mas o que é proibido por Lei precisa necessariamente de ser moral. E, se não for moral, nós cidadãos, temos o dever também moral de o rejeitar. Não me cabe neste espaço (nem me sinto com competência para tal) dissertar sobre o que é moral mas gostava muito de acreditar que, na sociedade em que vivo, de entre as coisas que tomamos colectivamente como sagradas, universais e indisputáveis, se encontram poder dar de comer a quem tem fome, honrar os mortos, visitar os doentes. Não o permitir é falhar num dever básico de humanidade. Que não seja a minha sociedade. Que não seja a nossa.


P.S. Irei com este texto à Porta Solidária saber se lhes podia ser útil mais este apoio. Ou a outra instituição que me apontem lá como mais carenciada. E irei depois tentar contactar a empresa que explora a cantina. Espero que não se continue a invocar a "lei" para justificar que se deitem tabuleiros inteiros de comida boa para o lixo.

Ricardo Teixeira Pinto h 1 mês