Destruir Le Pen pela direita

Quem acompanha a política francesa à distância não estranhou o anúncio da candidatura de Éric Zemmour à presidência de França. Trata-se de uma candidatura independente, desconexa de qualquer partido. Sem máquina partidária atrás de si, ser-lhe-á difícil criar uma base de suporte no terreno, quanto mais não seja para recolher o apoio de 500 representantes eleitos necessário a uma candidatura presidencial. Para já, a campanha revela contar com 250 a 300 promessas de apoio.


A quatro meses e meio das eleições presidenciais, Zemmour granjeia bastante apoio junto de reconhecidas personalidades do mundo empresarial e dissidentes da União Nacional, descontentes com o rumo do partido sob a liderança de Marine Le Pen.


Uma sondagem do Le Journal du Dimanche deste fim-de-semana coloca Zemmour no terceiro lugar (14-15%), atrás de Marine Le Pen (19-20%) e Emmanuel Macron (25-28%) na primeira volta, com o presidente francês a bater a líder da União Nacional na segunda volta (54-46%). Este lançamento surge numa altura em que a candidatura do polemista de extrema-direita perde fulgor e precisa de contrariar a trajectória descendente das últimas semanas, depois de meses a percorrer o país em visitas a empresas e associações, multiplicando-se nos contactos com a população, o que chegou a valer-lhe valores a rondar os 18% e o segundo lugar nas sondagens, à frente da líder da União Nacional.


Sem grande programa político para apresentar, Éric Zemmour recupera o ideário do velho amigo Renaud Camus – também ele condenado por incitação ao ódio e à violência raciais e religiosos – e propõe-se a combater a "grande substituição" francesa: uma teoria racista, identitária e conspiracionista que recusa a existência de duas civilizações em solo francês e que Zemmour pretende que seja o leitmotiv desta campanha eleitoral. Segundo esta teoria, se nada for feito, dentro de 50 anos os muçulmanos serão uma maioria em França e, daqui a 100 anos, o país será uma "república islâmica". Uma teoria bastante popular nos anos 1930, no seio do partido nazi, na Alemanha, e que mais recentemente inspirou o terrorista responsável pelo ataque de Christchurch, na Nova Zelândia, em Março de 2019, que provocou 51 mortos.


Zemmour apresenta-se assim como o salvador do legado de Joana d'Arc, Luís XIV, Napoleão Bonaparte ou General Charles de Gaulle (em quem se inspirou para o cenário do anúncio da candidatura) e da memória das fábulas de La Fontaine, de Nôtre-Dame de Paris e das torres sineiras nas aldeias.


Aos 63 anos, o ex-jornalista, escritor e comentador judeu, filho de imigrantes argelinos, autodenomina-se defensor da civilização cristã francesa e é uma das vozes mais extremistas em França em relação à imigração e aos muçulmanos, o que lhe tem valido vários processos na Justiça por difamação e duas condenações por incitação ao ódio racial. Profundamente xenófobo e misógino, tem um historial de acusações de agressões sexuais que remontam aos anos 1990.


De onde vem, então, a popularidade de Éric Zemmour? Na carreira enquanto jornalista, foi através da participação regular em programas de rádio e televisão que construiu a imagem de comentador de direita, adoptando uma retórica nacionalista anti-imigração, com posições abertamente xenófobas, racistas, misóginas, além de incitar o ódio contra muçulmanos. Em 2019 juntou-se à CNews, canal de televisão ao estilo Fox News, que lhe deu a plataforma ideal para continuar a espalhar a sua mensagem de ódio, chegando a centenas de milhares de telespectadores em horário nobre.


Autor de vários bestsellers, alguns dos livros que publicou contêm visões incendiárias sobre mulheres e minorias étnicas, além de imprecisões históricas, numa tentativa de revisionismo branqueador de França ao longo da História, incluindo a Segunda Guerra Mundial ou a guerra da independência da Argélia. Em "Suicídio Francês", por exemplo, Zemmour tenta refutar o papel do Governo de Vichy, liderado pelo Marechal Philippe Pétain, na prisão de milhares de judeus durante a Segunda Guerra Mundial, o que lhe valeu críticas da comunidade judaica em França. Em Setembro, percorreu o país para promover o seu mais recente livro – "A França ainda não disse a sua última palavra", numa tradução livre –, que vendeu mais de 250 mil exemplares e que serviu de mote para o lançamento da sua pré-campanha eleitoral.


Zemmour aproveita, com particular mestria, o facto de os partidos tradicionais franceses – o Partido Socialista, à esquerda, e Os Republicanos, à direita – ainda estarem a recuperar dos governos de François Hollande (2017) e Nicolas Sarkozy (2012). Se Emmanuel Macron aproveitou para conquistar o centro e assim chegar ao Eliseu, é natural que Zemmour apareça agora a dividir o eleitorado com Marine Le Pen e se apresente como a voz de uma maioria silenciosa, do povo esquecido pelos partidos do sistema. Tal como Donald Trump, o político francês não traz nada de novo ao espaço público. Apenas vem dar voz a uma franja da sociedade que vê nele alguém que valida as suas ideias intolerantes e cheias de preconceitos, o que não deixa de ser alarmante. Isto é, o problema da extrema-direita é mais estrutural do que circunstancial – em França e no mundo. Um país fundamentalmente católico que só precisou que se perdesse a vergonha na linguagem no espaço público, que vigorou entre as décadas de 1960 e 1990.



Le Pen ultrapassada pela direita

É esta perda de vergonha e a aceitação deste discurso no espaço público que o diferencia de Marine Le Pen, que, ultrapassada por Zemmour pela direita, não se faz rogada em distanciar-se: "O seu projecto é completamente contrário ao meu: mulheres, economia, imigração. Firmeza não é brutalidade. É um polemista, não um candidato presidencial. Rejeita e divide. Não quereria que se juntasse a mim ou que fosse candidato. Não traz nada de novo, não tem valor acrescentado. A divisão não é um serviço para o país".


Enquanto a líder da União Nacional se afasta da extrema-direita e tenta suavizar a imagem do seu partido, procurando apagar o legado racista e xenófobo que herdou do pai, Zemmour faz precisamente o caminho contrário: tenta radicalizar, provocar e enquadrar o debate em torno da sua própria visão do que deve ser a França.


A um populismo grosseiro destinado a captar o voto da classe trabalhadora, o ex-jornalista francês junta-lhe o reconhecimento intelectual que atrai o voto da burguesia ultra-católica francesa. Tendo estudado na prestigiada SciencesPo, Éric Zemmour é uma versão mais inteligente, mais polida e mais instruída de Jean-Marie Le Pen, fundador e líder apeado pela filha da Frente Nacional.


Comparado com Donald Trump ou Nicolas Farage e a despertar o interesse de Steve Bannon, Zemmour tem como objectivo destruir a União Nacional e a sua líder, enquanto Le Pen tenta, sem grande sucesso, fazer a quadratura do círculo: captar votos da direita tradicional, sem com isso perder o apoio das alas mais extremistas e radicalizadas do partido. Com a sangria de apoiantes para Zemmour, está assim em marcha um movimento que ambiciona vencer em 2027, com o apoio da extrema-direita e da ala mais radical da direita tradicional.


Com o campo da extrema-direita dividido em cinco candidaturas, de que Le Pen e Zemmour são os naturais protagonistas, não surpreende por isso que surjam os apelos a que haja uma candidatura única às presidenciais, para evitar o que aconteceu nas presidenciais de 2002, em que o aparecimento de três candidaturas à esquerda acabou por retirar o socialista e favorito Lionel Jospin da segunda volta, o que acabou por reconduzir Jacques Chirac.


Eis que reaparece Marion Maréchal, entre Marine Le Pen, de quem é sobrinha, e Éric Zemmour, político por quem nutre bastante admiração e com quem os seus caminhos se cruzaram no passado. Na difícil e ingrata posição de ser sobrinha de Marine Le Pen – com uma visão mais conservadora da sociedade, que a levou a abandonar o partido e a política activa, em 2017, após meses de guerra surda com a tia –, a outrora estrela em ascensão da extrema-direita francesa defende, no entanto, que deveria haver uma candidatura única liderada pelo candidato mais bem colocado na corrida.



Parasitas identitários da sociedade

Sendo certo que Zemmour não é mais do que um balão de ar quente que parece estar a esvaziar-se, é preciso não subestimá-lo ou perdê-lo de vista, uma vez que continuará a ser uma figura proeminente no cenário político francês.


Os erros que o candidato tem cometido nas últimas semanas, incluindo o pirete à moda antiga em Marselha e os insultos a Gilles Bouleu depois da entrevista na TF1 no dia em que anunciou a candidatura, têm ditado a descida nas sondagens e forçaram o timing da apresentação da candidatura que, ainda assim, não foi inocente: foi feito no dia em que começaram os debates das primárias à direita, que antecede o congresso d'Os Republicanos. Marine Le Pen tem aproveitado os deslizes para atacar o adversário que, considera, falhou na sua transformação em candidato presidencial: "Quando queremos ser Presidente da República, precisamos de ser capazes de manter a calma, de controlar o instinto", disse.


Muita coisa pode acontecer daqui até Abril do próximo ano. Independentemente de quem venha a representar a extrema-direita nas presidenciais – se Le Pen, se Zemmour, se ambos – ou do resultado que venham a registar, o que nos deve inquietar é o tipo de atracção que personagens como Donald Trump, Nicolas Farage ou Éric Zemmour exercem sobre o eleitorado.


Talvez seja altura de começar a reflectir nas desigualdades e no crescente sentimento de insegurança – infundado ou não – de grande parte da sociedade, que não se sente representada pelos tradicionais actores políticos e que estas personagens exploram, mais do que uma suposta adesão generalizada às suas ideias retrógradas e preconceituosas e à sua retórica reaccionária.


Éric Zemmour é apenas, no caso francês, o elemento federador destes descontentamentos que procuram alguém que os represente e lhes dê voz. Mesmo que venha a sair derrotado, Zemmour pôs já em marcha uma dinâmica ideológica que vai continuar a crescer e a estruturar-se nos próximos anos e, para estes parasitas identitários da sociedade, isso já é, por si só, um sucesso.

João Oliveira h 1 mês