Messi: ilógico sim, mas dentro de campo

Messi venceu a 7.ª bola de Ouro. Escândalo! Mentira! Corrupção! Imerecido! Como é possível? A Bola de Ouro perdeu toda a credibilidade… Ou não!

Assisto com toda a estupefacção aos vários comentários críticos à atribuição da Bola de Ouro a Lionel Messi. Uns dizem que não ganhou títulos importantes na última época, retirando prestígio e valor à Copa América – prova que conta com nada mais do que quatro campeões mundiais e com um conjunto de seleções extremamente competitivas –, outros defendem que a sua época foi fraca a nível individual e que outros jogadores tiveram um rendimento superior ao argentino, como Benzema ou Lewandoski.

Recentemente ouvi alguns comentadores de A Bola TV a dizer que das sete Bolas de Ouro que Messi ganhou apenas quatro eram merecidas, argumentando que outros futebolistas, como Ribery, Iniesta ou Lewandoski, mereciam mais do que o argentino serem titulados como melhores futebolistas do mundo. Perdoem-me a frontalidade mas por vezes fico verdadeiramente atónito, embasbacado, pasmado com afirmações tão levianas, tão simplistas e superficiais vindas de profissionais que deveriam estar muito mais preparados e deveriam, para além disso, ter um pensamento mais profundo – diria mesmo mais sofisticado e mais complexo.

Desde logo, afirmar que Messi não merecia ganhar a 7.ª Bola de Ouro é faltar ao respeito, não à France Football, mas a toda a imprensa mundial que nele votou. A Bola de Ouro é um prémio atribuído pela revista francesa mas é votado por toda a imprensa mundial, nomeadamente por 180 membros de todo o globo. Podemos, claro, não concordar com o resultado final da votação mas afirmar que é uma mentira, que é imerecido ou que descredibiliza o prémio é inapropriado, altamente injusto e ofensivo para toda a imprensa mundial. Existem meios de expressarmos a nossa opinião sem desrespeitar uma votação que é, acima de tudo, democrática. Os próprios jornalistas de A Bola TV que criticam a atribuição da Bola de Ouro faltam ao respeito à própria classe ao descredibilizarem a opinião dos 180 jornalistas que participaram na votação. Podemos, como disse, não concordar com a atribuição, evidentemente. Contudo, se a vitória se deveu a uma votação imparcial de 180 jornalistas de países diferentes, como se pode afirmar que foi imerecido ou que foi um escândalo? Não seria mais ético respeitar a decisão, apesar de podermos, como disse, não concordar?

Depois, estou plenamente convencido de que a maioria das pessoas que defendem que o Messi não merecia a 7.ª Bola de Ouro não o viram jogar na última época. Não podem ter visto. Porque comparar o futebol que Messi jogou com o futebol de Benzema, Jorginho ou de Lewandoski é só um exercício estéril e infrutífero. Se tivessem tempo e disponibilidade para verem a maior parte dos jogos destes futebolistas facilmente compreendiam que o futebol de Messi é de um outro patamar, de um outro nível, de um outro Planeta. Por isso, esses jornalistas focam-se no número de títulos ganhos na época e no número de golos e, depois, fazem as suas a avaliações. As conclusões destes comentadores são tão simplistas que se tornam supérfluas. Essencialmente a ideia é esta: quem tem mais títulos coletivos e quem marca mais golos nos principais campeonatos da Europa deve ganhar a Bola de Ouro. Parece simples. Mas não é. Só assim se explica que se diga que Messi apenas deveria ter 4 Bolas de Ouro, que se defenda que Ribery ou Iniesta deveriam ter ganho duas Bola de Ouro a Messi, e que a 7.ª Bola de Ouro do argentino deveria ter sido entregue a Lewandoski, Jorginho ou Benzema.

Sou da opinião que os números não nos dizem tudo mas dizem-nos algumas coisas. Temos é que ver para além dos golos e dos títulos porque, embora importantes, não podem ser os únicos fatores de avaliação. Existe o talento, a classe e a produtividade global no jogo, que vai muito para além do golo, pelo que é extremamente redutor e, pior do que isso, injusto reduzir a atribuição da Bola de Ouro ao número de golos e às conquistas coletivas. Mas vejamos o rendimento individual de alguns dos anos supostamente mais polémicos. Infelizmente não consegui reunir todos os critérios que desejaria de épocas mais longínquas, mas mesmo assim podemos fazer uma avaliação que analise mais do que o golo e do que as conquistas coletivas.

Muitos defendem que Iniesta e Ribery deveriam ter ganho uma Bola de Ouro entre 2010 e 2014. Ora, vejamos alguns indicadores de rendimento. Na época 2009/10 Messi fez 53 jogos, marcou 47 golos e fez 12 assistências, ao passo que Iniesta fez 42 jogos, fez 9 assistências e marcou 11 golos. Na época seguinte, Messi fez 55 jogos, marcou 53 golos e fez 25 assistências, contra 42 jogos, 1 golo 9 assistências do espanhol. Em 2011/12 Messi fez 60 jogos, marcou 73 golos e fez 32 assistências ao passo que Iniesta fez 46 jogos, 8 golos e 12 assistências. Em 2012/13, ano que Ribery ficou em 2.º na Bola d Ouro, o francês fez 43 jogos, 11 golos e 23 assistências, enquanto Messi fez 50 jogos, marcou 60 golos e fez 17 assistências. Em todos estes anos Messi marcou muitos mais golos que Iniesta ou Ribery – o que era expectável tendo em conta a posição em que joga – mas acima de tudo, no geral, realizou muitas mais assistências que o espanhol, o que já não é assim tão expectável tendo em conta a posição de Iniesta e a ideia de que este era um dos principais municiadores de jogo do argentino. Já em 2012/13 Messi teve intervenção direta em 77 golos ao passo que Ribery contribuiu diretamente para 44 golos. Ribery fez uma época brilhante mas, ainda assim, inferior à de Messi em 2012/13. Mas não fiquemos por aqui.

Para além dos golos e assistências, um estudo realizado pela OPTA e publicado em 2014 concluiu que o rendimento futebolístico de Messi entre 2010 e 2014 era, nas palavras do próprio estudo, "impossible". Este estudo minucioso, que analisou vários parâmetros do jogo ofensivo, concluiu que Messi não só era o jogador que mais golos marcava por jogo, como era o futebolista do mundo que mais assistia. Mas o rendimento do argentino não ficava por aí. Messi dominava todos os critérios, alguns deles com uma larga vantagem sobre os demais como: drible, percentagem de passes certos, criação de oportunidades de golo, eficácia do remate, etc. Era, igualmente, o jogador que, de longe, conseguia marcar mais golos sozinho (ou seja, sem ser assistido por um colega, o que também desmente que os seus golos dependiam muito de Iniesta e de Xavi) – cerca de 25%, contra 14% de Aguero e 8% de Cristiano Ronaldo. Dito de outra forma, este estudo concluiu que Messi entre 2010 e 2014 dominou todas as dimensões do jogo ofensivo e era o jogador que, de longe, possuía melhor rendimento futebolístico do mundo. Portanto, a quem mais do que atribuir a Bola de Ouro entre 2010 e 2014 senão ao futebolista que apresenta maior produtividade futebolista em todos os domínios implicados no futebol ofensivo?

Vejamos outra época polémica: a de 2017/18, em que Modric ganhou a Bola de Ouro e que muitos portugueses consideram que deveria ter sido ganha por Ronaldo. Nessa época Messi fez 54 jogos, 45 golos e 18 assistências. Desses 54 jogos em 35 foi considerado o MVP, completou 302 dribles, criou 158 oportunidades de golos e fez 2762 passes certos. Modric, por seu turno, fez 43 jogos, 8 assistências e 2 golos, foi 10 vezes o MVP, fez 111 dribles completos, criou 83 ocasiões de golo e fez 2892 passes certos – registos muito inferiores ao argentino. Por fim, Ronaldo, fez 44 golos, 8 assistências, foi considerado 15 vezes o MVP, fez 74 dribles completos, acertou 1280 passes e criou 71 oportunidades de golo. Mais uma vez, Messi teve um rendimento muito superior a qualquer futebolista, tendo em alguns casos números maiores do que Ronaldo e Modric juntos, como no número de vezes em que foi MVP (35 de Messi versus 25 de Modric e Ronaldo), na quantidade de dribles completos (302 de Messi versus 185 de Modric e Ronaldo), ou ainda na criação de oportunidades de golo (158 de Messi versus 154 de Modric e de Ronaldo).

Por fim, na última época, que muitos andam a considerar a anátema da Bola de Ouro, Messi fez 47 jogos, marcou 38 golos e realizou 14 assistências. Para alem disso fez 2421 passes certos, 214 dribles completos, criou 118 ocasiões de golo e 26 grandes ocasiões, tendo sido ainda eleito 25 vezes o MVP. Lewandoski, por seu turno, fez 42 jogos, marcou 50 golos e assistiu por 8 vezes. Completou 669 passes e 44 dribles, criou 54 oportunidades de golo e 16 ocasiões flagrantes, tendo sido eleito 15 vezes MVP. Benzema, por fim, marcou 34 golos em 48 jogos e fez 4 assistências. Completou 55 dribles, criou 71 ocasiões e 13 grandes oportunidades de golo, tendo sido considerado por 13 vezes o MVP. Como se vê, mais uma vez Messi atingiu performances únicas, com alguns parâmetros com uma produtividade maior do que os outros dois jogadores juntos (14 assistências de Messi versus 12 de Lewandoski e Benzema; 214 dribles de Messi versus 99 do polaco e do francês).

E depois existe tudo o que os números não podem quantificar e que apenas pode ser avaliado por quem o vê jogar regularmente: o improviso, a criatividade, o inúmero reportório de soluções para os problemas que se lhe deparam, a capacidade que tem de dominar todos os capítulos do jogo, seja na finta, no passe curto, no passe longo, na desmarcação, na gestão dos ritmos do jogo… O rendimento futebolístico de Messi é único. Se analisarmos para além do golo – em que ele é excecional – verificamos isso em todos os outros capítulos do jogo ofensivo. Se o virmos jogar com alguma regularidade percebemos que é único e que a comparação com outros futebolistas se torna um não-assunto.

Na época passada Messi continuou a ter o melhor rendimento do mundo, em muitos deles com larga vantagem para os seus opositores, como nos dribles, nas assistências ou na criação de oportunidades de golo, em que os seus números são superiores ao de Lewandoski e Benzema juntos, como vimos. Por outro lado, desvalorizar a Copa América e considerar, como alguns, que o Europeu é mais prestigiante, é desrespeitar a prova internacional mais antiga do mundo em atualidade e uma competição extremamente competitiva (em que praticamente todos os intervenientes já venceram), que é o centro das atenções de milhões de sul americanos que com ela vibram e para quem o europeu é considerada uma prova secundária – da mesma forma que para muitos europeus a Copa América é secundária.

Sou da opinião que Messi não fez a melhor época da sua carreira. Não fez. Mas a sua produtividade extraordinária no meio de um Barcelona em crise profunda – mantendo a equipa competitiva e lutando pelo título até ao fim – e o seu rendimento no seio de uma seleção medíocre que culmina com uma Copa América completamente estratosférica, em que carrega a equipa sozinho até à final (com 4 golos e 5 assistências em 7 jogos) é mais do que suficiente para vencer a 7.ª Bola de Ouro.

Fico profundamente constrangido com a impreparação e parcialidade clara de alguns comentadores que, claramente, não veem os jogos do Messi e baseiam as suas conclusões em números de golos e títulos conquistados, como se isto fosse suficiente para ter uma opinião devidamente abalizada sobre uma questão que deve ser analisada com alguma profundidade e rigor que, infelizmente, muitos não têm. Levo já alguns anos a ver e analisar futebol e nunca na minha vida vi um jogador com uma produtividade futebolística tão elevada e tão incomparavelmente distinta dos restantes jogadores. A forma como ele processa cognitivamente informação do meio, a par da sua relação única com a bola permite-lhe ter "superpoderes" em relação aos seus colegas e adversários, o que depois se materializa num rendimento absolutamente único na história do futebol mundial. Messi é ilógico. Messi its impossible

Ricardo Serrado h 1 mês