Como é que as empresas salvam o mundo?

O tema da sustentabilidade entrou definitivamente nas nossas vidas. Quem não ouviu falar já de conceitos como ESG (Environmental, Social, and Corporate Governance), carbon taxes, green bonds ou green finance? Ter consciência da gravidade da situação é positivo, mas insuficiente. Basta refletir sobre os resultados da COP26, em Glasgow, para perceber isso. Muitas palavras e promessas, mas ações curtas para atacarmos o desafio das alterações climáticas. Todos concordamos com a necessidade de garantir a sustentabilidade dos recursos do planeta, nem todos concordamos – nem sabemos – como lá chegar. É o que a literatura chama "custos de transição", que são muito elevados.


Por um lado, será necessário investir biliões de dólares para reconverter os sistemas económicos, e também em inovação para encontrar produtos e serviços sustentáveis. Por outro lado, as transformações necessárias são muito profundas porque vão ao âmago da nossa estrutura económica, sendo a produção de energia e os padrões de consumo exemplos paradigmáticos.


Não basta colocar dinheiro no problema, é necessário encontrar soluções. E, no mundo empresarial, a realidade é semelhante. Numa recente entrevista ao Financial Times, Paul Polman afirmou que as organizações não se devem focar em diminuir o mal que fazem, mas em resolver os problemas do mundo. "A distância entre o que está a ser feito e o que é necessário fazer está a aumentar". Paul Polman foi CEO da Unilever durante cerca de uma década e responsável pela definição e implementação de um plano estratégico que pretendia transformar integralmente o modelo de negócio da multinacional para que fosse sustentável.


Como ultrapassamos esta situação? Tal como defendia Aristóteles, o caminho para a virtude encontra-se através da prática. Ou seja, fazendo todos mais e melhor, numa ação coordenada entre organizações internacionais, governos e empresas. E as empresas não têm menos responsabilidades. Ainda assim, arrisco dizer que têm o papel mais fácil. Podem contribuir para a salvação do planeta fazendo o que melhor sabem: criando valor. É para isso que as empresas existem. Portanto, é apenas necessário reorientar propósitos, objetivos e modelos de negócio.


Numa lógica de sustentabilidade, a criação de valor, e a sua distribuição, tem que ser posicionada num âmbito mais holístico, que integra, em simultâneo, várias dimensões: financeira, capital humano, ética e governance e a área ambiental. Todas as dimensões são igualmente importantes. É tão relevante acabar com as emissões líquidas de CO2 como evitar estratégias criminais de fuga aos impostos, ou não pactuar com práticas laborais que desrespeitam os direitos dos trabalhadores.


Ainda assim, as empresas não têm que mudar o seu ADN e os tradicionais modelos analíticos de gestão continuam válidos. As empresas conseguem assegurar estratégias competitivas diferenciadoras baseadas na sustentabilidade. Podem consegui-lo através de diferentes vantagens competitivas: melhor acesso a financiamento e capital humano; mais e melhores resultados com a inovação; reputação reforçada e crescimento nas vendas; acesso mais favorável a mercados internacionais; reforço da satisfação dos colaboradores e clientes graças à diminuição da pegada ambiental; prevenção de custos associados a medidas regulatórias. Por outras palavras, há várias formas de "criarem valor".


Cada organização saberá melhor do que ninguém o caminho a seguir, mas há cinco passos que podem ser dados para garantir uma implementação com sucesso: integrar os princípios ESG na estratégia competitiva; identificar um propósito para a organização e criar uma nova cultura; ter indicadores de controlo da integração desses princípios na organização; avançar com alterações operacionais para garantir a sua concretização; assumir o compromisso da transparência e comunicar abundantemente o processo de transformação junto dos principais stakeholders.


As jornadas de transição são difíceis e complexas, por isso temos tão poucos casos de verdadeiro sucesso. Mas não são uma missão impossível. Os estudos mostram que, para se atingir o tipping point numa indústria, tem que se reorientar cerca de 25 por cento desse sector. Ou seja, não é um valor intransponível.


Como refere Paul Polman, se as empresas não estão a provocar um impacto positivo no planeta, para que é que existem?

Bruno Proença h 12 dias