Um sérvio a arrumar uma Casa sem Segredos

"Parece que estamos naqueles programas da noite em que se fecham três jovens numa casa com uma garrafa de vodka, outra de gin e uma de whisky e depois, na manhã seguinte, dizem que houve sexo na Casa dos Segredos. Isto não importa nada, parece que estão a querer induzir qualquer coisa!", atirou Rui Vitória na conferência de imprensa de antevisão do Sp. Braga-Benfica, ainda a propósito da guerra de palavras com Sérgio Conceição.

Num tom mais irritado, o treinador dos encarnados quis matar em definitivo a troca de palavras com o homólogo portista e falar de futebol. De bola. Daquilo que se é suposto gostar mais. E acabou por falar pouco, tendo em conta o tempo em que a conversa sobre a novela com Sérgio Conceição esta sexta-feira conseguiu ocupar. No entanto, falou, e bem, na Pedreira. Agora que já passou a fase mais conturbada após as eliminações da Europa, da Taça de Portugal e da Taça da Liga, Rui Vitória vê a equipa crescer numa altura em que prepara apenas microciclos semanais focado no Campeonato. E sente que é possível recuperar os pontos perdidos na primeira volta.



É que, do pouco que falou de futebol na antevisão da partida, o técnico das águias destacou o 4x4x2 com nuances do Sp. Braga como um dos pontos importantes para estudar, anular e potenciar em seu favor. Conseguiu, com mérito. E recorrendo à principal referência da equipa que andava "desaparecido": Fejsa. O sérvio com fitas elásticas nas coxas fez um jogão, o melhor na presente temporada. E acendeu a luz numa Casa sem Segredos.

E não, não dizemos isto apenas pela analogia fácil: este Benfica, à exceção de 15 minutos após o golo do Sp. Braga onde teve de recuar linhas e sofrer um pouco sem bola, foi muito idêntico ao conjunto que ganhou o bicampeonato. O esquema tático é diferente, existem novas nuances técnicas (sobretudo as movimentações dos médios interiores), mas os processos que parecem ser tão simples para quem está apenas a ver um jogo de futebol tornam-se sempre demasiado complexos para os adversários conseguirem travar.

Os primeiros minutos funcionaram como cartão de apresentação das duas equipas em relação à forma como queriam atacar as balizas contrárias. E que eram diametralmente opostas: enquanto o Sp. Braga fugia aos lançamentos em profundidade e apostava tudo nas transições, o Benfica preferia um jogo mais organizado e apoiado com variação de corredores. 45 minutos depois, a que conclusão se chegou? O Benfica conseguiu, o Sp. Braga não.

Logo aos sete minutos, Danilo (o jogador que acabou por sair do Benfica para abrir vaga ao regresso de Filipe Augusto, sem que se perceba ao certo porquê olhando para as temporadas de cada um) conseguiu ganhar a bola a meio-campo, teve uma autêntica cavalgada pelo corredor central e rematou forte para defesa a dois tempos de Bruno Varela; na resposta, Salvio inventou espaço dentro da área mas rematou fraco de pé esquerdo para Matheus.

No entanto, já aqui se percebiam as dificuldades que os minhotos sentiam forçando a saída com bola da defesa, face à pressão bem conseguida das águias. E foi num lance assim que surgiu o golo que fazia a diferença ao intervalo: Danilo teve um erro em fase de construção, Jonas conseguiu a interceção, Cervi conduziu pelo corredor central até ao momento certo e assistiu para o toque em habilidade de Salvio por cima de Matheus (11'').

O Benfica estava na frente no resultado e no jogo. E estava na frente sobretudo por duas razões: no plano ofensivo, a maior rotatividade do 4x3x3 permite movimentações (ala de fora para dentro, interior de dentro para fora e subida dos laterais) difíceis de travar às estruturas contrárias, muitas vezes desposicionadas com este tipo de organização (um ponto que já tínhamos aqui vincado na deslocação a Moreira de Cónegos, na última jornada); na transição defensiva, Fejsa, o sérvio que ganhou sempre quando jogou em Braga (e sem golos sofridos, até hoje), voltou a ser aquele monstro campeão por dez ocasiões em três países diferentes (Sérvia, Grécia e Portugal), recuperando inúmeras bolas e marcando os timings das zonas de pressão que asfixiavam o motor bracarense.

Foi dessa forma que acabaram por surgir os dois lances de maior perigo até ao intervalo: primeiro foi Grimaldo, a rematar de longe para defesa de Matheus após recuperação de bola em zona ofensiva dos encarnados (26''); depois Krovinovic, numa jogada rápida que passou pelos três corredores até chegar aos pés do croata na esquerda, que puxou para dentro e rematou a bola muito perto da baliza dos arsenalistas (33'').

Estava tudo afinado, até naquelas manhas típicas de futebol: depois de Grimaldo ter feito sinal para o banco para trocar de chuteiras, Bruno Varela caiu no relvado sem que chegasse a entrar a equipa médica para assistir o guarda-redes e, nesse hiato, o espanhol conseguiu fazer a tal alteração (só perdeu uns segundos de jogo, enquanto estava a apertar os atacadores). Mas, mais do que isso, estava afinado a nível de passe: o Benfica terminou a primeira parte com uma percentagem de 90% de eficácia de passe. Ou seja, em cada dez passes tentados, só falhava um. E uma estatística deste género faz toda a diferença (e só está ao alcance dos melhores).

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Logo a abrir o segundo tempo, o Benfica teve uma bola no poste (Jardel, num cabeceamento ao poste após cantos aos 46''), um lance de perigo onde ficou ainda a pedir grande penalidade sobre Jonas logo a seguir (a falta até pode existir, mas o avançado parece adiantado no momento do passe vindo da esquerda) e um remate perigoso de Grimaldo numa transição rápida e com poucos toques envolvendo Salvio e o inevitável Cervi.

Os encarnados não marcaram aí, mas o golo não iria demorar e pelo suspeito do costume que aumentou a melhor série pessoal da carreira ao marcar pelo sétimo jogo consecutivo: Jonas começou a jogada, abriu na direita em André Almeida e correspondeu da melhor forma, de cabeça, ao cruzamento em arco do lateral (64''). Antes, para sermos mais rigorosos no minuto anterior, Varela tinha brilhado e segurado a vantagem com uma grande intervenção após remate rasteiro de Ricardo Horta em zona frontal puxado ao poste.

Momentos antes do 0-2, Abel Ferreira preparava uma alteração mas acabou mesmo por fazer duas. E que trouxeram uma mudança exponencial do rumo dos acontecimentos. No final do encontro, o técnico dos arsenalistas referiu, por mais do que uma vez, que a grande diferença entre as equipas esteve na qualidade de passe e nos erros não forçados, mas foi com a colocação de João Carlos Teixeira entre linhas em posição mais centrais que o Sp. Braga ganhou pela primeira vez o corredor central. Paulinho, a 15 minutos do final e aproveitando um deslize de Varela, conseguiu reduzir a desvantagem e abriu por completo o encontro para o que faltava.

Logo a seguir, Ricardo Horta teve um lance de muito perigo na área. E a pressão, pelo menos territorial, foi-se acentuando, com maior exploração do jogo aéreo com a entrada de Dyego Sousa. No entanto, a equipa visitada acabou por ficar demasiado exposta e o Benfica explorou de forma perfeita a profundidade, marcando em cima do final do jogo o 3-1 por Raúl Jiménez (após nova assistência de Cervi), que minutos antes falhara isolado.

A festa no banco encarnado, em consonância com os cânticos que se ouviam nas bancadas, disse tudo: o campeão mostrou que está vivo na luta pelo título. Resta saber qual será a resposta do FC Porto (desloca-se ao Estoril na segunda-feira) e do Sporting (recebe amanhã o Desp. Aves).

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Bruno Roseiro h 5 dias