A diferença entre Messis e Rafas resumida ao golo

"Empate? "Não, queremos ganhar. Vamos fazer tudo por isso. Estamos a preparar o encontro da melhor maneira para conseguirmos os três pontos". Se num plano meramente teórico o grupo H estava resumido aos 18 pontos do PSG e à luta entre Juventus e Benfica pelo segundo lugar, o bom arranque de temporada dos encarnados e o triunfo em Turim reforçou uma esperança de desafiar o impossível que sempre esteve presente entre os jogadores do conjunto da Luz mesmo que não manifestada em termos públicos. Era por isso que, num jogo com pouco a perder e muito a ganhar, com a certeza de que qualquer resultado não ia fechar as contas da liderança e também não tiraria a equipa dos lugares de apuramento para a fase seguinte, Enzo Fernández enchia o peito naquele típico tom quase desafiador dos atletas sul-americanos.

"Sinto-me muito bem. Quando voltei da seleção senti algum cansaço mas recuperei. Amanhã [esta quarta-feira] será 50/50. O favorito será o PSG mas faremos de tudo para conseguir a vitória. Presença na seleção? Foi um momento muito feliz da minha vida. Cumpri um sonho de menino, sonhamos sempre em jogar pela nossa seleção. Estou muito feliz. Segredos para conseguir levar a melhor? A concentração, a atitude, a vontade", comentara na antecâmara do duelo o médio argentino, um dos grandes destaques do Benfica esta época que entrava na terceira jornada da Champions como o elemento com mais faltas da prova mas também o quarto com mais recuperações, em nova prova de como as operações passavam todas por ali.

Ainda assim, a antecâmara de um dos jogos grandes do dia na Liga milionária não foi propriamente a mais feliz para os encarnados que, mais do que quebrarem a série de 13 vitórias consecutivas com o nulo no Dom Afonso Henriques, revelaram uma face até agora inexistente na temporada. Em vez de quase 21 remates, o Benfica fez seis. Em vez das sete tentativas enquadradas, houve só uma. Em vez de pelo menos 13 remates na área, foram apenas dois. Em vez de 11 faltas, cometeu 22. Em vez de quase nove recuperações no último terço, alcançou apenas quatro (nenhuma de David Neres ou Rafa). Em vez de 4,5 oportunidades flagrantes para marcar como apontava a média da Liga, não teve nenhuma diante do V. Guimarães. Um jogo pode não passar disso mesmo, um jogo. No entanto, era contra essa quebra que a equipa iria agora lutar.

"É um jogo novo. É diferente, não dá para comparar, cada jogo é um jogo. Não estivemos no nosso melhor frente ao V. Guimarães, especialmente no que toca à criatividade e a construir oportunidades. Por outro lado, também defendemos bem. O adversário não teve uma única oportunidade para marcar e isso é algo positivo que se pode retirar. Agora é diferente, eles são uma equipa atacante e vão tentar jogar lá à frente. Será um jogo com mais espaço e mais intensidade, com ritmo elevado. Temos de acreditar em nós, ter muita confiança, não podemos ajustar-nos apenas ao adversário. Vamos sentir-nos ligados aos adeptos e lutar pelos três pontos", comentara na antevisão Roger Schmidt sobre o encontro na Luz.

"Temos de provocá-los na defesa, temos de pressioná-los, mas precisamos de ter um jogo equilibrado. Há que demonstrar a nossa qualidade com posse de bola. Vai ser um encontro muito duro mas estamos preparados e desejosos que chegue. É este tipo de jogos que queremos quando se disputa a Champions. O objetivo não é ter mais jogadores na defesa. Temos de ser irrepreensíveis e aproveitar os momentos de 1x1 com espaço, assim como defender bem nessas situações. Precisamos de jogadores à volta da bola para se apoiarem. Já demonstrámos que sabemos jogar um futebol ofensivo mas também que conseguimos ter uma defesa segura, os adversários não criaram muitas oportunidades", acrescentara.

Tudo o que Schmidt prometeu, o Benfica cumpriu. Mais na primeira parte quando conseguiu fazer o que sabe perante uma das melhores equipas da Europa, com o mesmo mérito no segundo tempo quando se viu obrigado em muitas ocasiões a ter de sofrer perante a pressão dos franceses. Depois, e a dez minutos do final, quando já estava a jogar como a principal referência no ataque, Rafa ligou novamente a mota para passar por tudo e todos, criou a oportunidade para derrubar o todo poderoso PSG mas acabou por ver Donnarumma fazer bem a mancha, falhando depois a recarga. As estrelas não ganham jogos sozinhas, por mais que sejam de outra galáxia a jogar a passo (e também porque têm jogadores como Vitinha para segurar a equipa). E a grande diferença por uma noite entre Rafa e Messi foi mesmo o golo.

O ambiente estava verdadeiramente frenético na Luz, não só por altura do hino do Benfica mas também na música que assinala os jogos da Champions e que não se conseguiu ouvir no estádio perante os cânticos de apoio dos adeptos encarnados. E assim continuou nos minutos iniciais: mesmo sem oportunidades, só o simples facto de haver uma equipa fiel aos mesmos princípios de jogo, capaz de pressionar alto e de forma a condicionar por completo a saída do PSG e sem medo de desenvolver o futebol em posse perante alguma surpresa dos franceses que não se conseguiam soltar. Gonçalo Ramos, primeiro num remate após passe longo de António Silva que lhe permitiu avançar até à área (8'') e depois em mais uma tentativa forte mas de meia distância (13''), teve os dois primeiros lances de perigo contra um PSG ainda sem baliza.

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Quando se pensava que o PSG podia chegar e tomar conta do jogo a seu gosto, foi o Benfica que colocou os franceses atrás da bola, sem saída e a ter também grandes dificuldades em termos defensivos, como veio a acontecer em nova oportunidade flagrante para os encarnados: Rafa conseguiu descer para o espaço entre linhas entre Marquinhos e os dois médios, virou para a baliza para assistir David Neres mas o remate de pé direito do brasileiro foi desviado por Donnarumma para canto com uma grande intervenção (18''). Era só Benfica, Benfica e Benfica até as estrelas parisienses conseguirem soltar-se pela primeira vez... para o primeiro golo: recuperação de Hakimi e Vitinha, bola em Messi, combinação com Mbappé e Neymar e remate fantástico do argentino a inaugurar o marcador sem qualquer hipótese para Vlachodimos (21'').

Esse gesto de génio que valeu o primeiro golo de Messi ao Benfica acabou por ser um balde de água fria a todos os níveis, mudando por completo as características do jogo: o PSG começou a ter posses bem mais largas e no meio-campo contrário, Vitinha tomou conta do corredor central, os encarnados perderam a sua capacidade de saída. Apesar de tudo, só mesmo o médio português conseguiu um remate com algum perigo e de fora da área, para defesa fácil de Vlachodimos (32''). Os parisienses estavam entretidos a jogar em espaços de cabines telefónicas mas, aos poucos, o Benfica recuperou o seu campo largo, teve a primeira ameaça após o 1-0 com um remate de António Silva em boa posição travado por Donnarumma (38'') e chegou mesmo ao empate perto do intervalo, com Enzo Fernández a ir à esquerda fazer a diferença, a cruzar bem para a área e a ver Danilo desviar para a própria baliza com Gonçalo Ramos por perto (41'').

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Os ânimos ainda aqueceram perto do descanso, com Enzo Fernández a ter uma entrada muito dura a meio-campo sobre Verratti que foi sancionada com cartão amarelo e o italiano a protestar muito pedindo uma expulsão direta. Tudo serenou, tudo acalmou. Tudo menos os adeptos encarnados, num ambiente incrível de quem acreditava ser possível aumentar aquilo que só seria uma surpresa para quem não. No entanto, havia duas grandes dúvidas antes do reinício da partida: 1) até que ponto os jogadores da cada conseguiam manter a intensidade, velocidade de processos e frescura física para pressionar mais alto e condicionar a fase inicial de construção contrária?; 2) o que teria preparado o PSG do meio-campo da frente para encontrar os espaços que andaram desaparecidos no primeiro tempo? A resposta às duas questões iria coincidir com a pergunta de quantos pontos conseguiria o Benfica conseguir esta noite.

Foram os franceses a começar melhor o segundo tempo, com três boas oportunidades apenas nos dez minutos iniciais: primeiro foi Neymar a acertar de bicicleta na trave numa jogada que começou em Nuno Mendes e que teve pelo meio uma grande defesa de Vlachodimos a remate de Hakimi (49''), depois foi Otamendi a atrasar mal para o guarda-redes grego que conseguiu ainda evitar o toque de Hakimi que podia colocar a bola na zona de perigo da área (51''), por fim foi Neymar a atirar forte de livre direto para mais uma defesa do número 1 dos encarnados (55''). Até nos livres laterais havia essa sensação de perigo, como aconteceu num desvio de cabeça de Danilo que saiu à figura de Vlachodimos. O PSG crescia no jogo, o Benfica não conseguia atacar e era o grego que mantinha o empate no resultado, com mais uma grande intervenção depois de Messi encontrar espaço para isolar Hakimi pelo corredor direito (61'').

Aos poucos, o Benfica foi conseguindo serenar os ânimos, mesmo tendo menos bola e jogando pouco na zona do último terço contrário. E até conseguiu criar uma boa oportunidade para se colocar em vantagem, com Otamendi a surgir de cabeça ao primeiro poste após livre lateral de Grimaldo para desviar de cabeça perto da baliza de Donnarumma (69'') antes de Vlachodimos fazer talvez a melhor e mais complicada defesa de todas num grande remate de Mbappé de fora da área que ia ao ângulo antes do desvio para canto (71''). Por mais que não fosse esse o desejo dos dois conjuntos, o jogo começava a partir e foi nessa fase que Rafa podia ter decidido o encontro, ganhando em velocidade à defesa contrária para rematar pressionado por Marquinhos para defesa de Donnarumma antes de falhar a recarga (81''). Estava anulada a última hipótese flagrante de golos, estava a chegar ao fim o jogo em que um empate não fez jus à "vitória" do Benfica.

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Bruno Roseiro h 1 mês